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Conto de ALCIONE MARIA CAMPOS - LEMBRANÇAS DE UM NATAL DISTANTE
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Autor Tema: Conto de ALCIONE MARIA CAMPOS - LEMBRANÇAS DE UM NATAL DISTANTE  (Leído 694 veces)
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HENRIQUE MENDES
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« : Diciembre 23, 2016, 01:25:03 »

LEMBRANÇAS DE UM NATAL DISTANTE

Sou de uma época em que não havia shopping, internet, televisão, muito trânsito... de tecnologia eu só conhecia o rádio e a vitrola. Vivia numa pequena cidade, aproximadamente dez mil habitantes. Suas ruas não eram calçadas, ora estavam cobertas de pó vermelho, ora de lama. Usavam-se para o transporte carroças, charretes, carros de boi, cavalos, bicicletas... Havia alguns poucos caminhões , um carro de praça , uma jardineira para atender a toda a cidade. Os fazendeiros mais abastados costumavam ter uma caminhonete ou um jipe.

O comércio se resumia a alguns armazéns de secos e molhados, duas ou três lojas de tecidos, uma de sapatos, dois armarinhos, sendo que um deles acumulava a função de livraria e papelaria. Verduras e frutas da estação eram oferecidas de porta em porta, bem como o pão e o leite. Alfaiates e costureiras trabalhavam duro para atender à necessidade da população que nunca havia ouvido falar no prêt-à-porter.

Minha mãe era uma boa costureira, trabalhava duro o ano inteiro, principalmente em finais de ano, próximo às festas de Natal, Ano Novo e folia de Reis. Sua máquina Singer, movida a pedal, era incansável nesta época. Aquele ano mamãe estava assoberbada de trabalho e para ajudá-la nos desdobrávamos, apesar da pouca idade: meu irmão mais velho tinha onze anos, eu, nove e a caçula, sete. Eu ficava encarregada de adiantar o almoço, de tão pequena e franzina não alcançava o fogão a lenha e precisava subir num caixote para refogar o arroz, amassar o feijão, torrar os grãos de café. Difíceis tarefas para uma criança de nove anos; com frequência levava alguns grãos de café até minha mãe, para que ela verificasse o ponto de torragem; outras vezes punha-me a gritar:
- Mamãe, chega de amassar o feijão? Meu braço está doendo...
- Só mais um pouquinho- respondia.

Minha irmã varria a casa, lavava a louça e outros pequenos serviços. O Vavo, como era mais velho, vendia pirulito ou mingau de milho verde na rua, delícias cujo preparo roubava mais umas horas de sono de nossa mãe. Os pirulitos eram vendidos com relativa facilidade entre as crianças na porta da escola ou após as missas. Já o mingau...este era oferecido de porta em porta. Um dia, meu irmão passou defronte a uma janela e gritou: - comprar mingau? Alguém retrucou lá de dentro: - num tô doente! Foi o quanto bastou para que ele se recusasse a vender este produto outra vez.

A cidade vivia praticamente de produtos artesanais. Meu avô trabalhava como ourives, mas a maior parte de suas encomendas eram de trabalhos de funilaria. Utilizava a folha de flandres para confeccionar baldes, canecas, bules, moringas, lamparinas, bandejas , etc.

Como o Natal estava próximo, sem recursos para presentes, mamãe foi pedir a seu pai que fabricasse algum brinquedo para suas meninas. Ele ficou feliz e atendeu prontamente ao seu pedido, de modo que com bastante antecedência entregou-lhe dois aparelhos de café, compostos de bandeja, bule e quatro canequinhas em cada um. Com os presentes garantidos, debruçou-se nas costuras de tal maneira que nem percebeu o tempo passar.

Chegou a véspera de Natal e ela não se deu conta. No tarde do dia seguinte, arrematava umas costuras com os filhos brincando à sua volta. Lembrou-se de ligar o rádio e de repente se deu conta de que a véspera de Natal passara em branco. Sem pensar, falou: -nossa, meninos, não é que ontem me esqueci de dizer a vocês para colocarem os sapatos em frente à janela?

Foi como uma bomba jogada no meio de nós. Meu irmão meteu-se num canto do quarto para não deixar transparecer seu desapontamento, a Nilza abriu um berreiro sem fim e eu, primeiramente senti –me como se fora atingida por uma descarga elétrica, com o coração aos pulos tentava me controlar. Depois passei a lutar contra as lágrimas silenciosas que teimavam em brotar de meus olhos. A angústia fechou-me a garganta, não queria acreditar que nossa chance se dissipara daquela maneira...
Observando nossa reação, mamãe percebeu o estrago que fizera e tratou de consertar as coisas.

- Calma gente, não precisam ficar assim , tenho certeza de que o Papai Noel ainda não acabou de distribuir os presentes para tantas crianças e ainda deve estar por aqui. Ponham os sapatinhos debaixo da janela e vão brincar no final da rua para dar um tempo pro velhinho passar. Vocês podem sair.

Atendemos rapidamente ao seu pedido. Nunca podíamos brincar fora de casa , mas nossa ansiedade era tanta que nem pensamos em aproveitar a liberdade que nos fora concedida. Não parávamos de gritar:
- Já pode ir?
- Já passou?
- Não, ainda não- ela respondia
- E agora?
Finalmente fomos autorizados a voltar. Disparamos. Num segundo pusemo-nos embaixo da janela, diante dos presentes, ávidos de curiosidade.
- Oh! Uma bandejinha, um bule, canequinhas! Ficamos maravilhadas.
Meu irmão ganhara um corte de tecido para uma camisa. Eu e Nilza continuávamos extasiadas com a beleza dos nossos presentes. Que alívio, Papai Noel não nos esquecera, apenas não sabia onde estavam nossos sapatinhos.

Até hoje, quando penso nos natais, é deste de que me lembro.
Nunca mais vivi emoções tão intensas quanto as do Natal de 1924.



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