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Autor Tema: O MEU AMIGO PIPOCAS  (Leído 80 veces)
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HENRIQUE MENDES
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« : Octubre 22, 2017, 05:57:58 »
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Pede-me Leonor para falar de um dos meus cães. Imediatamente me veio à cabeça o Pipocas, mas como falar dele ? O seu diminuitivo era Pocas, e fomos inseparáveis desde o dia em que nos conhecemos numa petshop.

Na loja havia havia um pequeno recinto onde brincavam uns doze cachorrinhos cocker spaniel. Divertido com as suas travessuras, baixei-me para acariciá-los. Quando me levantei, um deles veio pendurado na minha gravata e recusava-se a largá-la. Era o Pocas. Preto, barrigudinho, com uma pequena mancha branca no peito.

Enquanto o comprava descobri que tinha um longo pedigree, e que se chamava realmente Kodak, mas isso eram apenas detalhes de um acontecimento maior: -Tinhamo-nos conhecido e agora ele era meu. Pelo menos, isso era o que eu achava.
 
Mas óbviamente ele tinha algo a dizer sobre o assunto e, logo nesses primeiros momentos, ficou claro que ele achava que eu que agora lhe pertencia, para ter e cuidar. E, talvez para marcar bem o seu ponto de vista, foi todo o caminho até casa sentado no meu colo, enquanto eu dirigia o carro - meio pendurado, mas sem me soltar  a gravata.

Depois, quando chegamos e o coloquei no chão da sala, finalmente soltou-me. Mas foi apenas para avançar rosnando e correndo de lado, muito trapalhão, sobre a Estrelinha, uma cocker spaniel dourada já quase adulta, com uma estrela branca na testa,  que, surpreendida por se ver assim atacada por aquela ínfima criatura, fugiu.

Então ele deu-se por satisfeito e regressou para o meu colo com aquele ar muito orgulhoso de quem tinha afastado um inimigo. Claro que voltou a  abocanhar a minha gravata que, nessa altura, já estava toda marcada dos seus dentes afiadíssimos. Acabei por oferecer-lha, e ele corria por todo o lado arrastando-a atrás de si, brincando, tropeçando nela e caindo, mas sem nunca a soltar.

Rápidamente entendeu que a Estrelinha não era inimiga nem representava  nenhum perigo para mim. Tornaram-se grandes amigos, e logo nessa primeira noite ele já dormiu enroscado entre as patas dela. Com a minha gravata na boca, evidentemente.

Como o Pocas era muito pequenino e sempre perseguia os atacadores dos meus sapatos, eu receava pisá-lo. Então coloquei-lhe ao pescoço um pequeno guizo que ia sinalizando a sua posição. Graças a isso percebi que ele ia várias vezes por noite ao meu quarto apenas para ver se eu estava bem. Eu acordava com o ruido do guizo e lá estava ele, sentado nos quartos traseiros como se fosse um cão adulto, olhando-me com toda a atenção. Depois voltava para a cama da Estrelinha. A dele, nunca a usou.

Os anos passaram, e o Pocas cresceu. Não foi preciso ensinar-lhe nada, a Estrelinha encarregou-se disso. Não subia para os sofás, não fazia barulho dentro de casa, e buscava o canto certo do jardim para fazer as suas necessidades.  Creio que nunca ladrou a ninguém, excepto quando ficava no carro e entrava em modo de cão de guarda. Nessa altura, se alguém se aproximava demais, ou se mexia no carro, ele transformava-se numa fera, com os dentes muito grandes e muito brancos batendo nos vidros do carro - e era realmente intimidante.

Ele e a Estrelinha tiveram uma linda ninhada de sete crias, uns pretos como ele, outros dourados como ela. Todos lindos, barrigudinhos e saudáveis, com uma energia e uma curiosidade avassaladoras. O Pipocas revelou-se um pai formidável, com uma paciência a toda a prova.

Como a casa tinha sido construída em socalcos, havia várias escadas dentro e fora, no jardim. Isso era um problema para os bébés, claro. Por isso o Pocas agarrava-os pela pele do pescoço e levava-os, um a um, escadas acima e escadas abaixo, sempre que era necessário. Foi assim até eles conseguirem fazê-lo sozinhos. Demorou!

Com o passar dos anos, atravessámos juntos um divórcio. A Estrelinha  ficou com a dona, e nós dois buscámos outros ares. Daí em diante, ele passava muito tempo dentro do meu carro, acompanhando-me enquanto eu visitava clientes, numa permanente busca por sombras onde estacionar.

Também ia-mos juntos ao café onde, logo de manhã, eu tomava a primeira refeição do dia em pé, de frente para o balcão. Ao meu lado, sentado sobre as patas traseiras, o Pocas copiava os meus gestos, e ficava olhando os bolos através do vidro. Acabámos descobrindo um bolo de arroz, quase sem açucar, que o dono do café passou a trazer para ele tal como trazia para mim as coisas que eu costumava comer: sem perguntar. Ele comia duma vez só, quase sem mastigar, e continuava olhando o balcão, compenetrado e tranquilo.Os outros clientes viam e achavam graça. Diziam que éramos iguaizinhos.

Aos poucos tornámo-nos conhecidos, ali e na praia, onde o Pocas se especializou em abordar as moças que apanhavam sol deitadas de barriga para baixo. Normalmente estavam sem a parte de cima do bikini, que tinham tirado e deixado sobre a toalha, ali do lado.  O Pipocas aproximava-se com aquele ar de quem quer meter conversa, simpático, deixava-se acariciar sem problemas, e ainda ganhava umas batatinhas fritas de vez em quando. Depois,  quando faltavam as batatas ou quando ele achava que estava na hora, abocanhava o pedaço do bikini e fugia para junto de mim.

Um amigo meu, que costumava estar presente, ria-se e elogiava-o: " Good- boy!", dizia enquanto o coçava detrás das orelhas, como ele gostava. Não sei se foi isso que o incentivou, mas era muito frequente  a presença de moças embrulhadas em toalhas, reclamando enquanto apanhavam o biquini todo enrolado e cheio de areia, parecendo um croquete.

Todos os meus amigos adoravam o Pocas por causa das moças que ele trazia até junto de nós, mas elas também. Claro que lhe davam restinhos de sorvete, e ele adorava o pessoal todo. A propósito de sorvete, lembro das vezes que, correndo os olhos pela praia, fui encontrar o Pocas sentado em frente a uma criança, comendo o sorvete a meias com ela. Mas educadamente, que é que julgam ??  Agora lambes tú, agora lambo eu! Não roubava o sorvete das criancinhas nunca. Claro que os pais, normalmente, quando se apercebiam do que se passava, compravam outro sorvete para os seus filhos e deixavam o primeiro para o Pocas comer sozinho. E nessa altura sim, quando percebia que era só para ele hesitava um pouquinho e depois comia tudo de uma só vez.

Quando mais tarde voltei a casar, morava em apartamento. Receei que ele se tornasse demasiado cioso do espaço e não acolhesse bem a nova dona, que nao estava habituada a ter cão dentro de casa. Mas, ao contrário, ele rápidamente arranjou uma forma de se deitar sobre os pés dela ( e não mais os meus...) trazendo com ele uma bola de borracha rosa pink que ela lhe tinha oferecido algum tempo antes. Depois disso, passou a ser ali o lugar habitual dele dormitar enquanto viamos televisão.

Adoptou de tal maneira a nova dona que durante uma semana em que ela esteve doente, ele deitou-se no quarto, perto da cama, e deixou de comer, desanimado e desgostoso. Aos poucos, recuperaram ambos.

Mas aos poucos o tempo passou. O Pocas começou a não ser capaz de saltar sozinho para dentro do carro, depois começou  a não me acompanhar, quando eu me movimentava dentro de casa. Por fim começou a ficar parado em pé, arquejando. O seu coração fraquejou, com a idade, e não houve o que fazer. A morte aproximou-se a passos largos, rápidamente.

Por fim, tivemos de dizer adeus, num momento pungente em que ele foi pesando nos meus braços até chegar ao fim. Escolhi para ele um lugar que eu sei que seria do seu agrado, bonito e inacessível, junto das ruínas duma ponte antiga, que ficou parada no tempo, entre auto-estradas.  Sempre que passo de carro consigo ver de longe, por um instante, flores e borboletas, e passarinhos brincando em liberdade, e torna-se fácil imaginá-lo brincando por ali com uma velha gravata na boca.



2017
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Leonor Aguilar
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« Comentar #1 : Octubre 22, 2017, 07:34:17 »
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Lo amé, lo puedo imaginar todo atorrante y simpático!!!

Qué bello recuerdo del amigo que estuvo a tu lado en las buenas y en las malas.

Gracias por escribir su historia, Henrique. La he disfrutado
 
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HENRIQUE MENDES
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« Comentar #2 : Octubre 22, 2017, 01:14:16 »
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Lo amé, lo puedo imaginar todo atorrante y simpático!!!

Qué bello recuerdo del amigo que estuvo a tu lado en las buenas y en las malas.

Gracias por escribir su historia, Henrique. La he disfrutado
 

La historia no le hace justicia. Fue un increíble compañero siempre, mismo en horas malas, cuando pasamos hambre juntos. pero progresamos juntos también y así quedamos hasta tenermos de decir adiós. Un abrazo, Leonor Aguilar. Sé que entiendes el tremendo intercambio emocional con un compañero de vida así.Saludos
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Cony Ureña
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« Comentar #3 : Octubre 24, 2017, 09:03:42 »
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Oh amigo mío, un homenaje precioso y conmovedor. Muy real, tanto que "te he visto"  desde el momento de la compra hasta cuando de lejos miras el lugar donde descansa Pipocas. Dios bendiga a esos animalitos que iluminan nuestras vidas. Gracias querido Henrique por tu relato.
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